que o paciente não mais sofra de seus sintomas e tenha superado suas angústias e inibições; [...] Que o analista julgue que foi tornado consciente tanto material reprimido, esclarecido tanto do incompreensível, vencida tanta resistência interna, que não haja mais razão para temer a repetição dos processos patológicos em questão. Somente nesse caso podemos falar de uma análise definitivamente levada a termo.
Freud, Análise terminável e interminável, p. 176Clínica
Para quando algo retorna, insiste ou resiste a desaparecer por conta própria.
Uma análise lacaniana não se orienta a alguém que visa descobrir sua “verdadeira essência” escondida dentro de si, como uma substância psicológica, buscando um núcleo autêntico oculto sob os acidentes de sua vida. Para esses, talvez ela possa fazer muito pouco. Ela começa mais ou menos quando essa mesma pessoa percebe que não é tão transparente para si mesma quanto imaginava.
Quando essa consistência imaginária vacila e o sujeito se vê constrangido a reconhecer que há, em sua fala, algo que pensa e insiste para além de sua intenção. Nesse ponto, uma análise não poderia oferecer uma reconciliação de nós com nós mesmos, pois se trata, acima de tudo, numa aposta nessa mesma divisão. Uma experiência da divisão produzida pela incidência do significante, isto é, pela entrada numa ordem simbólica que não prolonga naturalmente o organismo nem exprime uma interioridade prévia, instituindo uma descontinuidade radical entre o Eu e o Sujeito.
Da análise, há uma coisa que deve prevalecer, é que há um saber que se retira do próprio sujeito... É do tropeço, da ação fracassada, do sonho, do trabalho do analisante que esse saber resulta. [...] Esse saber que não é suposto, ele é saber, saber caduco, migalhas de saber, sobremigalhas de saber. É isso o inconsciente.
Lacan, Seminário 1971-1972, p. 71